Atos

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Dos diálogos incompletos II

Em algum lugar da livraria...

– Eu estive pensando há pouco e cheguei a concluir, que a arte é deveras inadequada. Comecemos pelo custo. Sim, qualquer arte. Olhe, por exemplo, as obras plásticas, as pinturas, os espetáculos cênicos, o cinema...

– Sim, continue.

– A boa obra de arte não cabe no custo de um bom produto. O custo de um bom espetáculo nos teatros é muito alto para o brasileiro comum. Uma proporção pequena da sociedade tem permissão financeira para pensar no valor da arte. E não vale tentar consumi-la, sem pensá-la, pois se necessita primeiro compreender o que é arte.

– Deixe-me, tirar uma dúvida, um livro no sebo ou um disco ao custo de eletricidade também entram no rol das coisas financeiramente inacessíveis?

– A literatura é ainda pior. É como um tiro no escuro como fosse num mercado de finanças. Pois não se vê uma prévia do trabalho. Compra-se às cegas. E, atualmente, às cegas é que se tem produzido literatura. Portanto, é um risco; risco igual se oferece ao tateio da música. O custo é uma compensação, pois você sabe que o mau tato para estes assuntos se cria pelo contato obtido com a má obra. A escolha é o resultado de uma construção pessoal que leva em conta “por em referência aquilo que se tem anteriormente como arte”. E essa referência só se desenvolve com grandes obras.

– Sugere que esperemos ela extinguir-se, enquanto conversamos, e, daí então, figurar, finalmente, num museu de incompatibilidades humanas ou de paradoxos desenvolvimentistas?

– Não... Não aguardaria séculos por isso. Apenas observo e exponho certas coisas. Nada mais.

– É por isso que não se vive de arte, pois não se vive de cinzas.

– É, talvez esteja certo, já matamo-la. Contudo, nunca se sabe se há de ser dado um novo suspiro. A arte não se rende aos meandros da razão humana.

4 comentários:

Larissa Minghin disse...

Gosto tanto de você!
Ouviria "Muito" do Caetano por meses também!

Elan Lopes disse...

Sim, ela não se rende. A arte é como o espírito, ela não foi, ela não será, ela apenas É! E por ser, não tem limites.

Abraço grande meu amigo.

Crônicas do Cotidiano disse...

Diria que tudo é poesia... Mesmo em meio as prateleiras da livraria! O amor bem como a arte por vezes se contextualizão. Mais são fortes e sempre vão adiante e um pouco mais! É a arte que se camufla em amor. Ou talvez seja o amor que dê sentido a Arte.
Bjks e já te sigo!

Fernando disse...

"Há fronteiras nos jardins da razão!"

- Francisco Ciência.