Atos

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domingo, 29 de maio de 2011

Ando sentindo tanta coisa estranha em mim...
Parece-me o mundo qualquer coisa de incompreensível. Qualquer coisa que de mim escorrega e me falta ao entendimento. Mas há tanto sentimento jogado por aí, que o absurdo é ver quem não sinta algo novo a cada instante.

domingo, 15 de maio de 2011

Aprendo a ver...

“Aprendo a ver. Não sei a razão, tudo cala mais fundo em mim e não se detém onde sempre costumava se extinguir. Tenho um âmago que desconhecia. Tudo deságua nele, agora. Não sei o que se passa lá.


Hoje escrevi uma carta, e, ao fazê-lo, me ocorreu que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar – no campo, por exemplo – poderiam ser como um dia; aqui, são anos. Não quero mais escrever cartas. Por que deveria dizer a alguém que estou me modificando? Se me modifico, deixo de ser aquele que era e passo a ser algo diferente do que até agora fui, e então é evidente que deixo de ter conhecidos. E a pessoas estranhas, a pessoas que não me conhecem, é impossível escrever.



Será que eu já disse? Aprendo a ver. Sim, estou começando. Ainda é difícil. Mas quero aproveitar o meu tempo.


Eu nunca tinha percebido, por exemplo, que existiam tantos rostos. Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários. Há pessoas que ostentam um rosto por anos a fio, e, obviamente, ele se gasta, fica sujo, rompe-se nos vincos, alarga-se como as luvas que usamos durante a viagem. São pessoas parcimoniosas, simples; não o trocam, nem sequer mandam limpá-lo. Esse é bom o bastante, dizem elas, e quem poderá lhes provar o contrário? Pergunta-se, todavia, visto que possuem vários rostos: o que fazem com os outros? Elas os guardam. Seus filhos devem usá-los. Mas também acontece de seus cães saírem com eles por aí. E por que não? Rosto é rosto.


Outras pessoas trocam os seus rostos extraordinariamente depressa, um após o outro, e os gastam pelo uso. Parece-lhes, de início, que os teriam para sempre, porém, mal chegam aos quarenta, e eis o último. Isso tem, é claro, a sua tragicidade. Elas não estão acostumadas a poupar rostos, o último se gastou em oito dias, tem buracos, está fino como papel em muitas partes, e então, pouco a pouco, revela o que há por detrás dele, o não-rosto, e elas andam com esse não-rosto por aí”

Rainer Maria Rilke. Trad.: Renato Zwick

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Nota de pesar em preto e branco

Semana passada vivenciei algo que causou a mim uma certa perplexidade. Durante a semana inteira vi ecoar os reflexos da morte de um sujeito. Não falo de algo nem de longe desconhecido, falo mesmo da morte de Bin Laden. E o que isso acarretou no emocional dos grupos sociais foi o que me surpreendeu, pois dessa vez não vi militares e ativistas extremistas a comemorar ou repudiar a ação militar que ensejou no assassinato, mas civis também. Civis em todo globo dando palmas de alegria a uma operação assassina e a celebrar a morte como o elixir divino. Não trato a questão por um julgamento do caráter do sujeito, não mesmo! Mas observar que sujeitos que nunca se ativeram a questões da política extremista árabe, ou qualquer envolvimento tiveram em conhecer o que essa prática antiterrorista representa, glorificando a morte de um desconhecido... Isso para mim é mais do que sinistro, é doentio. Dá mostra de mais um traço decadente de nossa sociedade. Pois só o que se nota com isso é o quão facilmente as pessoas, hoje, tomam partido das coisas, mesmo que para isso devam elas se abster de certos valores.

Espero que se possa notar, aqui, que não defendo o sujeito de modo algum pelo que fez ou deixou de fazer. Mas não coaduno com a política do olho por olho, bala por bala. O assassinato é, em todo caso, injustificável. Não se busca paz com morte e violência, muito menos com uma comemoração funesta da morte. Urge revermos nossos valores, e aplaudirmos as coisas certas. A pena que aplicamos, hoje, não educa, mas brutaliza mais a sociedade, pois a natureza histórica dessa pena que atualmente temos como solução em nossos sistemas jurídicos é, como mais cedo Nietzsche observou, a de vingança. E já é hora de notarmos que a vingança é cega e bruta! Nos conduz senão a mais violência.

domingo, 27 de março de 2011

A Arte para a Cura


Sinto frequentemente uma falta das coisas; às vezes, beira o oposto sem que eu mesmo perceba, vai desse vazio à sensação de gordura espiritual. Como quem estivesse vivendo coisas demais para digerir. No fundo, ambas as sensações parecem traduzir uma coisa só. A impossibilidade de conduzir os pés pelo mundo. E nesses momentos a única dieta apropriada para uma cura, ao menos, paliativa, que encontro, é usufruto da arte. Produzir e digerir arte em doses calavares...

Esta é a única ferramenta que nessas horas me sobra para conhecer-me um pouco mais, racionalizando e sublimando as situações. Se me é suficiente, não sei. Mas prefiro pensar que a atitude perfaz o ciclo retroalimentar da inspiração artística, que se alimenta de feridas, curando algumas, mitigando outras. Ocorre que por óbvio desígnio que o ofício do artista tem, alguns cortes se fecham, outros se somatizam pelo corpo, permanecendo como contínua fonte de recursos temáticos da produção artística. As consequências que já observei disso são tantas outras que caberiam num ensaio aparte. Portanto, diante disto, prefiro recorrer a um belíssimo insight de Ferreira Gullar, que vi, pela primeira vez, escrito numa parede do museu nacional de belas artes, ao tom de um vermelho firme e forte: “A ARTE EXISTE PORQUE A VIDA NÃO BASTA”

Hoje, dedico à arte o meu culto e a minha adoração. E, na troca de um minuto de silêncio, proponho um dia de abstração das arbitrariedades que a vida traz. Se o artista é só, se não lhe enseja a oportunidade de um ombro verdadeiramente amigo, que não por isso se abstenha, mas que tome o dia para se reconciliar consigo mesmo. Que se desfaça dos laços mais doridos que os relacionamentos lhe empunhem pelo entorno da traqueia, do peito, ou de onde se lhe atem tais laços.


Tracem, hoje, um grande manifesto pela libertação!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

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"Take these broken wings and learn to fly"

Noto que mesmo que eu evite em certos momentos que a expressão me venha a tomar posse e escrever qualquer coisa, participar da maldita criação literária, não consigo fugir de sair colhendo palavras pelos cantos. Não sei o que é pior...

Provavelmente, devo cessar por um período indeterminado as postagens aqui. E que a quem tenha o costume de ler-me possa receber e aceitar minhas prévias desculpas.

domingo, 22 de agosto de 2010

Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua. (20-6-1929)

Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.

Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?
Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega (
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.


“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.