Je t'ai pris entre mes doigts. Tu as été mon souvenir.
A nada se equivale a sensação de ser, de sentir as alegrias mínimas, as dores mínimas, de ser absolutamente humano.
Atos
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Verso e música
Minha ideia continua a mesma. A
arte é uma forma de resgatar a integridade do homem. Um homem não pode ser
completo, ser por inteiro, sem a presença da arte.
A palavra, a música, o gesto, a
cor, mais do que nunca, têm composto minhas semanas. Tomei coragem para enredar
o meu romance, de que me esquivei por muito tempo para escrevê-lo sob aquele
típico argumento de que me faltava preparo, tempo, experiência... quando nada
disso tem profunda relevância. Hoje, ainda me falta preparo, tempo e experiência,
só me sobra a pretensão recalcada e a modéstia falsa de quem recebe um elogio.
Mas nem por isso deixo de escrever.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Convite ao Cinema
Há algumas coisas sobre as quais vale a pena falar, uma
delas chama-se Krzysztof Kieslowski, cineasta polonês, conhecido por pelo menos
uma dezena de filmes. Este final de semana terminei finalmente de assistir a “Trilogia
das cores” (Trois Couleurs), formada por títulos cujos nomes fazem referência
às cores da bandeira francesa: “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A
fraternidade é vermelha”.
O título das obras pode levar a crer que se trata de uma
obra social ou política, mas nem de longe a impressão é verossímil e identifica
esta obra magnânima. A temática dos filmes que compõem a trilogia são os
detalhes da vida, ou, para além, as profundezas da natureza humana. Confesso
que me sinto ainda em processo de digestão. Mas os filmes são todos construídos
pelos detalhes, o lustre azul que desperta as memórias do marido e filha
perdidos, a culpa por não poder conseguir lidar com a família de ratos que se
instala no porão, a música que vem da esquina do café; “A liberdade é azul”,
este primeiro filme parece-me um filme mais visual do que os demais, e
absolutamente não parece necessário mais diálogos para que o filme seja capaz
de fazer-nos sentir a dor e o desespero da personagem principal. Tudo acaba por
parecer muito frágil, uma ocasião foi o suficiente para fazer a vida da
personagem se despedaçar, perder o sentido. A vida (ou o homem) é muito frágil.
No segundo filme, “A igualdade é branca”, alguns sentimentos
conflitantes e até um tanto quanto obscuros parecem vir à tona. Um homem
rejeitado pela mulher, após o casamento fracassado, que o destrói e o humilha,
faz emergir no homem sentimentos conflituosos e nem sempre dignos de expressão.
Ele se vê obrigado a voltar ao seu país, onde, embora ainda amando a sua
ex-esposa, começa a arquitetar um engenhoso projeto para se tornar bem sucedido
e vingar-se da antiga mulher. O filme consegue explorar sentimentos desconfortáveis,
que com muito trato por vezes sublimamos. O fundo branco está sempre presente
na memória do dia do casamento, que é sempre resgatada.
Por fim, em “A fraternidade é vermelha”, percebemos certo
fechamento de um círculo, onde todas as histórias não existem de forma isolada.
A clausura do juiz aposentado, ressecado da vida, e que a meu ver representa a
personagem mais interessante neste filme, faz-nos perceber a vitalidade e a
força da memória e do passado na construção do homem presente. O homem capaz de
causar repulsa na modelo, personagem principal, pelos seus modos, tem a
capacidade de ser belo, de ser admiravelmente humano.
Nada disso diz coisa alguma da trilogia, além do que a
resume de forma muito má e tosca (culpo aqui, parcialmente, a minha disposição
madrugada adentro). A obra de Kieslowski ultrapassa a literalidade do
aparentemente ordinário de nossas vidas, com muita delicadeza e sensibilidade.
E ainda que não possa transpor isto aqui, resta o que eu disse ao início do
texto, há certas coisas sobre as quais vale a pena falar. E quem sabe, em algum
outro admirador da sétima arte, leigo como eu, isto também possa incitar a
curiosidade pela obra... o que já me valeria a postagem.
Bem... agora, a postagem já está justificada.
sábado, 5 de maio de 2012
Muriel
Há um bom tempo, conheci a poesia deste poeta que hoje aqui
apresento. E recordo-me de sobremodo uma poesia que me chamou atenção. A beleza
destes versos já me inspirou a desbravar outros rumos para a experiência da
escrita poética. Talvez, quem leia estranhe o ritmo do poema, conduzido pela
curiosa ausência de vírgulas.
Para quem não conhece, há uma corrente de poetas que aboliu
o uso das nossas tão familiares vírgulas na escrita do poema. Logicamente, há
uma ou algumas razões para isso. Uma das explicações, no entanto, remonta ao
antigo grego, que não conhecia ainda sinais de pontuação. Pelo que me consta, a
acentuação no grego antigo era o modo pelo qual se separavam as palavras, razão
pela qual era tida por uma língua muito sonora, sem quebras, pausas constantes
proporcionadas pelos sinais de pontuação. O ponto final, por exemplo, só veio a
ser introduzido na língua durante o Império Bizantino, e com a simples função
de separar visualmente os vocábulos. Portanto, sob a perspectiva de alguns
poetas, a ausência das vírgulas possibilitava a fluidez do poema, uma leitura
mais limpa, por assim dizer. Além do que, daí se pode constituir uma certa
liberdade ao exprimir-se, porquanto fosse uma libertação da rispidez da
gramática, certas vezes, um tanto quanto violenta no trato culto do dia-a-dia.
Nosso querido Manuel Bandeira chegou a fazer uso desta técnica com outra
finalidade bem curiosa... mas emendemos um ponto final por aqui, antes que eu
deixe de chamar a isto de introdução.
Fica para a leitura, Muriel, do poeta português Ruy Belo.
MURIEL
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para
os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré
maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos junto de califórnia
vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
Ruy Belo
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Alice and the wonders
“Do you hear the snow
against the window-panes, Kitty? How nice and soft it sounds! Just as if someone
was kissing the window all over outside. I wonder if the snow loves the trees and fields, that it
kisses them so gently? And then it covers them up snug, you know, with a white
quilt; and perhaps it says, “Go to sleep, darlings, till the summer comes
again.” And when they wake up in the summer, Kitty, they dress themselves all
in green, and dance about whenever the wind blows – oh, that’s very pretty!’
cried Alice, dropping the ball of worsted to clap her hands. ‘And I do so wish it was true! I’m sure the woods
look sleepy in autumm, when the leaves are getting brown.’
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Dos ofícios de Apolo
A
lua me engole quando tarda
O
sol me incendeia quando o ergo
Meu
rosto clareia a madrugada
Meu
pulso é a força da manhã que teço.
Confissão de solidão
Faz muito tempo que aqui não escrevo, e se agora o faço
novamente, faço para livrar-me, como numa confissão ou qualquer coisa que
assemelhe; há um peso muito grande no silêncio, peso que não mais me voluntario
a carregar; e se aqui tomo partido de manifestar-me mais uma vez com outra
postagem, assim faço, ainda sem saber se amanhã novamente o farei ou se daqui
um ano.
Mas é bem verdade que nunca cri que houvesse utilidade em
continuar escrevendo neste espaço, teoricamente público, mas quase como um
diário pessoal, sem leitores... Sei, também, que se ao menos fosse eu, de algum
modo, menos esporádico em minhas postagens haveria mais conforto para ser lido,
mais leitores, quem sabe, ou um leitor, ao menos, vez que se saberia que alguém
sempre estaria aqui compartilhando suas descobertas, desorientações e seus
pandemônios... Afinal o que mais queremos na vida senão a companhia dos passos
de alguém? Mas escrevo, mais uma vez, como se realmente a um diário me
dirigisse, pois como não me é costumeiro, trato isto de forma direta e literal.
O propósito deste texto não é outro que não o de narrar o ocorrido de duas ou
três semanas, ou para ser sincero desabafar da maneira mais direta, sem
metáforas ou rodeios, servir-me de objeto para uma terapia nova. Escrevo e isto
por si só já é um remédio, ou na pior das hipóteses, um paliativo.
Durante estas últimas semanas, tenho acumulado, é certo,
mais desorientações do que qualquer outra coisa que possa compartilhar. Alguns
problemas sentimentais, outros familiares, algumas questões éticas, umas e
outras frustrações profissionais, em resumo, este é o material que dispus e que
me fez imergir em mais reflexões do que estava... preparado para digerir.
Passei de uma curta experiência de uma dieta alimentar nova, movido por
concepções ideológicas, até, sem querer, a remexer em poeira que já há muito
andava coberta, o que a mim me sucedeu após receber uma ligação, creia-me que
de todo inesperada, e que por acaso ocasionou duas longas conversas
telefônicas.
Bom, posso hoje expressar bem o que entendo por inferno
astral, a sensação de que tudo está se despedaçando de modo desconexo e sem
controle, ou, para futuras referências, quando coisas não interligadas começam
uma após a outra a “entrar pelo cano”. Eu sinto, contudo, que involuntariamente não
escolhi buscar suporte, seja de origem técnica ou pelos laços de afinidade, que
são tão mais naturais a meu ver. A minha escolha, talvez, não muito sábia,
tornou os dias menos aprazíveis, sem dúvida; e, sobretudo, quase me destruiu, no
que tive por resultado uma sucessão de dias perdidos, sem qualquer tipo de
aproveitamento ou produção. No entanto, quiçá fizesse parte do que precisava
passar. Aprender a segurar as pontas, com as próprias mãos. Além do que, dos
últimos seis meses para cá, por motivos diversos, tive algumas das pessoas de
maior afeto e que muito me serviam como âncora afastadas de mim, da convivência
do dia a dia. E “segurar as pontas” foi a única coisa que me passou pela cabeça
e possivelmente a mais difícil de realizar, ainda que tivesse perdido a conta
de quanto isto eu repeti a mim, durante toda esta semana que passou,
principalmente, quando meu irmão entrou nas famigeradas crises de esquizofrenia
e inadvertidamente me conduziu de volta às memórias mais amargas que tive da
minha adolescência.
Minha
“ex”, o que é uma palavra estranha para caracterizar alguém, ainda mais alguém por
quem ainda se guarde certa estima (afinal como não guardar após quatro anos
juntos), disse-me esses dias que eu precisava permitir-me sentir raiva, deixar
de sublimá-la, racionalizando-a e racionalizando-a sempre; eu precisava
sentir-me humano. Parecer-me-iam absurdas essas palavras, primeiro pelo que
tomasse por base a ideia de que eu não me sentisse humano, depois, compreender
a sabedoria por não optar em racionalizar esse tipo de sentimento... mas acho
que estava certa, ao menos em certo ponto. Eu me senti humano, não só raiva eu
senti, mas desespero e muito medo, nos últimos dias, de acabar como quem mora
ao meu lado, quem atualmente me serve de alerta constante de onde eu não posso
chegar. Embora seja bem verdade, como eu falei a ela, que eu sinta mesmo uma necessidade
de cultivar dores ou de vivenciá-las com mais afinco. A arte é feita com cicatrizes
e, muito amiúde, com feridas ainda expostas. E eu devo confessar que não raro é
pela tessitura da arte que me tenho encontrado, às vezes só por ela. Por isso,
afirmar-me espiritualmente tem me interessado de tal modo que me afoga a
impressão de que toda a minha existência está voltada para este feito, de sorte
que nada mais me interessa!
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